domingo, 9 de maio de 2010

OPINIÃO: A MEMÓRIA DE UMA ÁRVORE NUM JARDIM DE NISA


Num destes dias de Maio, com a Primavera como companheira, Nisa acordou mais pobre! Mandou, a Câmara Municipal proceder ao abate de um conjunto de árvores de avançada idade, do pequeno jardim do Largo Heliodoro Salgado. Discretas e elegantes, mesmo com muitos anos de vida, ali estavam com a sua copa verdejante e o seu tronco rugoso, como a lembrar as profundas e marcantes rugas de uma face já envelhecida pelo tempo, e transportando no seu seio as lembranças de uma vila cheia de gente bonita e inteligente, que se sentavam nos bancos do jardim, nas tardes quentes, para saborear nas suas sombras a brisa que corria dos lados da serra, e as aves que vinham de longe, para no aconchego dos seus ramos, construir os seus ninhos e ter as suas crias.
O tempo marca a árvore e ela por sua vez marca o tempo de uma forma que só ela o faz, no Outono o cair da folha, no Inverno o descanso, na Primavera o início da vida e no Verão a força, mas o que a árvore é mesmo é a forma mais deliciosa de pensar o tempo.
Mas, como o tempo não está para se pensar muito, mandou este executivo camarário, abater a raiz da nossa memória de uma forma cruel e sem solicitar autorização aos mais interessados: os seus munícipes.
Existe perdido nas folhas de um livro de Sophia de Mello Breyner, um conto intitulado “A Árvore”, que foi construído a partir da narrativa homónima tradicional, do escritor japonês Isao Tesuka, que apresenta-nos um povo que vive em equilíbrio com uma árvore cuja imponência surpreende até os mais viajados; um povo que sofre por ter de cortar essa árvore, «bela, antiga e venerável», que crescera tanto que os raios de sol já não podiam entrar na ilha; um povo, afinal, que sabe transformar a morte da sua árvore em vida, e uma árvore que nesse contexto de acolhimento sem reservas sabe perpetuar a sua memória.
A certa altura do texto a escritora refere que: «Os japoneses têm um grande amor e um grande respeito pela Natureza e tratam todas as árvores, flores, arbustos e musgos com o maior cuidado e com um constante carinho.»
E foi nesta parte do conto, que consegui perceber, a atitude carinhosa que muita gente transmite nesta questão do património ambiental, mas que mesmo não sendo japonês, basta ter no nome um apelido do país do sol nascente, para se tornar num defensor da natureza em toda a sua grandeza, até mesmo para exterminar umas quantas árvores "obsoletas", num jardim do nosso Largo.
José Leandro Lopes Semedo

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