segunda-feira, 24 de maio de 2010

OPINIÃO: “Vamos à Vila”


Esta semana, na reunião do executivo da Câmara de Nisa, foi aprovado ceder parte da antiga escola primária de Montalvão, à Associação “Vamos à Vila” (Montalvão), por 4 anos, com renovações por período de 1 ano.
A ideia de voltar a dar vida a um edifício mandado construir durante o “Estado Novo”, incluído no famoso plano escolar intitulado “centenário” e que teve uma importância enorme na formação de muitos montalvaneses, (desde os anos 40 do século XX), merece o meu aplauso, já vai sendo tempo de valorizar e dar a conhecer todo o património desta terra, dando uso aos seus edifícios de uma forma correcta, de maneira a preservar toda uma memória colectiva, para que perdure no nosso imaginário o local onde várias gerações aprenderam a ler e a escrever, e que, de futuro irá albergar esta jovem associação de cariz cultural, que tem no seu ADN todos estes valores culturais associados.
Esta cedência de património, vem levantar algumas questões quanto ao uso ou reconversão de alguns imóveis públicos, que estão ao abandono e sem qualquer tipo de intervenção, por parte das várias entidades competentes. Não será melhor ceder estes espaços às associações do nosso concelho, para elas desenvolveram as suas acções em vez de estarem fechados sem qualquer uso?
Penso, ser esta a altura de se estabelecer um plano (parceria) a longo prazo, entre as juntas de freguesia, as associações e a Câmara, para dinamizar estes espaços públicos, que estão fechados (antigas escolas, casas do povo, igrejas) com animações culturais, nomeadamente exposições, conferências, debates, teatro, cinema, etc.
Estas associações culturais, podem trazer uma renovação a estas pequenas e isoladas localidades, como é o caso de Montalvão, com um atractivo e vasto programa ao longo do ano, podem de algum modo somar mais qualidade e bem - estar socioeconómico para estas gentes, nomeadamente com a criação de eventos na área das tradições, saberes e sabores, atraindo novos visitantes.
Neste últimos tempos muito se tem falado das industrias culturais, e qual o seu valor na nossa economia, nestes dias economicamente incertos. E todas as formas de dinamizar estas regiões deprimidas têm de ser tidas em conta.
Nestes poucos meses de vida esta associação cultural tem tido uma actividade extremamente regular, com destaque para o interessantíssimo workshop dedicado às “Recolhas de literatura oral e tradicional”, em parceria com o Centro I&D da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Gostaria de deixar uma sugestão para esta jovem associação e seus dirigentes, no ano de 2012, Montalvão celebra 500 anos do foral da vila (22 de Novembro de 1512), que tal começar a planear constituir uma comissão para promover várias iniciativas, para celebrar tal data, em conjunto com outras entidades locais?
JOSE LEANDRO LOPES SEMEDO

domingo, 9 de maio de 2010

OPINIÃO: A MEMÓRIA DE UMA ÁRVORE NUM JARDIM DE NISA


Num destes dias de Maio, com a Primavera como companheira, Nisa acordou mais pobre! Mandou, a Câmara Municipal proceder ao abate de um conjunto de árvores de avançada idade, do pequeno jardim do Largo Heliodoro Salgado. Discretas e elegantes, mesmo com muitos anos de vida, ali estavam com a sua copa verdejante e o seu tronco rugoso, como a lembrar as profundas e marcantes rugas de uma face já envelhecida pelo tempo, e transportando no seu seio as lembranças de uma vila cheia de gente bonita e inteligente, que se sentavam nos bancos do jardim, nas tardes quentes, para saborear nas suas sombras a brisa que corria dos lados da serra, e as aves que vinham de longe, para no aconchego dos seus ramos, construir os seus ninhos e ter as suas crias.
O tempo marca a árvore e ela por sua vez marca o tempo de uma forma que só ela o faz, no Outono o cair da folha, no Inverno o descanso, na Primavera o início da vida e no Verão a força, mas o que a árvore é mesmo é a forma mais deliciosa de pensar o tempo.
Mas, como o tempo não está para se pensar muito, mandou este executivo camarário, abater a raiz da nossa memória de uma forma cruel e sem solicitar autorização aos mais interessados: os seus munícipes.
Existe perdido nas folhas de um livro de Sophia de Mello Breyner, um conto intitulado “A Árvore”, que foi construído a partir da narrativa homónima tradicional, do escritor japonês Isao Tesuka, que apresenta-nos um povo que vive em equilíbrio com uma árvore cuja imponência surpreende até os mais viajados; um povo que sofre por ter de cortar essa árvore, «bela, antiga e venerável», que crescera tanto que os raios de sol já não podiam entrar na ilha; um povo, afinal, que sabe transformar a morte da sua árvore em vida, e uma árvore que nesse contexto de acolhimento sem reservas sabe perpetuar a sua memória.
A certa altura do texto a escritora refere que: «Os japoneses têm um grande amor e um grande respeito pela Natureza e tratam todas as árvores, flores, arbustos e musgos com o maior cuidado e com um constante carinho.»
E foi nesta parte do conto, que consegui perceber, a atitude carinhosa que muita gente transmite nesta questão do património ambiental, mas que mesmo não sendo japonês, basta ter no nome um apelido do país do sol nascente, para se tornar num defensor da natureza em toda a sua grandeza, até mesmo para exterminar umas quantas árvores "obsoletas", num jardim do nosso Largo.
José Leandro Lopes Semedo